segunda-feira

Aquário

Ele continuava deitado, sem perceber como é que aquilo lhe tinha acontecido novamente. Haviam passado anos desde a última vez em que todas as suas dúvidas, todo o seu medo, toda a sua angústia o tivesse atacado numa só noite. Mas na verdade, ele sabia, no fundo, bem no fundo, que aquilo que lhe regressou naquela noite nunca chegara a partir, esteve sempre com ele. Era o resultado do pensar, todo o pensar exagerado, inútil, raciocínio sem conclusão concreta. E, no entanto, continuava a pensar, e pensou naqueles que não pensam... Ah, ignorância, a maior bênção: nada de conhecimento, nenhuma ânsia de respostas, apenas percorrer o mesmo caminho, dia após dia, ano após ano, sem qualquer paragem para um intervalo de devaneio metafisico...! A sensação causada pelo o vazio, pela impotência, pela morte (sempre injustificável), que lhe percorria o corpo, era naquele momento tudo o que conseguia sentir.
Continuava acordado. Acalmara-se um pouco, e imaginou-a. A ela, aquela que adorava viajar até às nuvens, ou sentir-se protegida no belo lado negro da lua. Também ela pensava demasiado. Duas almas que no final das suas buscas, apenas encontravam os seus velhos medos. Eles sabiam que a única maneira de sobreviverem seria partilhando as suas dores, mesmo que não fosse entre eles. Partilhar, com alguém que compreendesse. Alguém que com ele ou com ela imaginasse tudo o que existe fora do pouco que podiam alcançar e lhes trouxesse paz. Porque ambos não sabiam em que acreditavam, e por isso não pensavam no outro lado; só desejavam o pequeno alívio de ter alguém ao lado que compreendesse que amor, morte, fé e desespero são palavras do mesmo poema.
Finalmente adormeceu. Enquanto se imaginava abraçado, protegendo alguém dos seus próprios fantasmas. E que no dia seguinte, iria acordar só, iniciando mais um dia a nadar nos seus próprios sonhos.

2 comentários:

  1. Sei que isto é uma ideia muito resumida , mas há muito tempo que sei que "pensar demasiado faz mal" .

    gostei muito do texto . :)

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  2. Fernando Pessoa deu em louco por tanto pensar..
    Alberto Caeiro chegou à conclusao que pensar faz mal como andar à chuva..
    Estou com o caeiro ! o homem era do campo mas sabia o que dizia :P

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