avec les chats dans un arbre.
terça-feira
quinta-feira
nos velhos tempos
Bandos de putos atravessam a estrada, chutando a bola que no final acaba no quintal do vizinho da caçadeira. Meninas de saias que cochicham umas com as outras e que fazem caras feias quando dizem "beijinhos". Escondem-se e contam até dez. Saem em busca uns dos outros, a procura dura anos. Os corajosos já não precisam que lhes empurrem o baloiço, e até tocam com os pés na árvore. Querem ser grandes e poderem arrancar folhas da tangerineira a partir do chão, esticando apenas os braços, para oferecerem às meninas que já dão as mãos. Há castigados inocentes e tabefes, escaramuças em que os mais fracos saem sempre a perder. Os irmãos obrigam a comer sopa, a mãe diz que a cenoura faz os olhos bonitos... mas não fazem os putos mais bonitos aos olhos das meninas, seja em que ano for. Os desenhos animados são mais importantes do que os putos pensam, os monstros não existem debaixo da cama. E quando um dia quiserem voltar a ser crianças, os putos deixam de ser putos e vão descobrir os monstros que são eles mesmos. E o jogo das escondidas, esse continuará sempre. Putos e meninas escondem-se desde a infância, permancendo à espera de alguém que os procure e em seguida corra até à parede para anunciar o escondido. Precisam de ser encontrados, mesmo não sabendo por quem, mas estão fatalmente condenados a sê-lo. Pelos velhos tempos, que poderão nunca ter sido.
quarta-feira
eternas rotinas (pós-helénicas)
Estremece a cadeira, e o homem nela pregado. O carrossel começa a girar, enquanto os braços da máquina ora se levantam, ora se baixam. O homem fixa-se inicialmente nesse metal amarelo, já gasto, com uma expressão de terror. Era esta a sua rotina ao domingo de manhã, semana sim, semana não. A expressão inicial de terror rapidamente se desvanece, e o homem fecha as pálpebras ao som dos braços giratórios. Sente o vento nas mãos e com elas sente o cinto que o prende à cadeira. Está a ser observado. Alguém o vê solitário e lê as emoções que transparece. O homem contempla agora tudo o que está à sua volta. Sente uma presença. Humana? Talvez tenha sido mera sensação, afinal ele escolhera aquele carrossel para cumprir o seu ritual precisamente porque aquele parque de diversões já não era divertido para ninguém. Desapertou o cinto. O braço mecânico estica-se uma última vez, e o homem é projectado no ar. Cai uns metros à frente. Fica apenas com umas nódoas negras. Alguém lê os seus pensamentos e consegue compreender exactamente o que ele vive no tempo em que se encontra no ar. A tensão do momento em que se apercebe que pode sentir dor dentro de instantes... Mas nunca se magoa, são sempre nódoas negras. Que o marcam e fazem recordar-se que tentou voar. Alguém observa (ou não) este estranho ritual. Vôo? Ou alcance de um qualquer extâse que resulta numa queda certa? Quem sabe? Quem pode saber?
domingo
e ela imaginou um negro crime passional
escurece.
sombras ganham vida,
três.
rostos amarelados
pelo tungsténio,
negros no pavimento.
que fazes tu?
espero.
que fazes tu?
passeio.
que fazes tu?
ignoro.
as paredes agora
estão frias
vascularizadas por
sangue que já não as aquece.
passos cegos,
silenciosos,
sombras mortas.
alguém tão desorientado
como o assassino,
- uma mulher e uma arma -
vítima errada.
ambos foram enganados.
sombras ganham vida,
três.
rostos amarelados
pelo tungsténio,
negros no pavimento.
que fazes tu?
espero.
que fazes tu?
passeio.
que fazes tu?
ignoro.
as paredes agora
estão frias
vascularizadas por
sangue que já não as aquece.
passos cegos,
silenciosos,
sombras mortas.
alguém tão desorientado
como o assassino,
- uma mulher e uma arma -
vítima errada.
ambos foram enganados.
segunda-feira
estação
Não há trânsito, e uma mulher encontra-se no passeio. Leva um cigarro à boca. Enquanto o acende, o telemóvel vibra. Expulsa uma pequena nuvem e atende. Aproxima-se a hora limite, afirma, retribuindo palavras ao interlocutor. A mulher, após esse desabafo, fica em silêncio; escuta afincadamente a voz que sai do aparelho. Continua a fumar. Contrapõe, explicando que mesmo que ainda esteja a tempo de correr até à estação, pode ter-se enganado a consultar o horário, já muito antigo. O comboio poderia ter partido de antemão, se é que realmente ainda existe comboio. Novo silêncio. A mulher, irritada, contesta a voz, que mesmo detida na estação a observar tudo o que chega e parte nunca pode saber se o comboio já lá não está, porque não sabe qual é o comboio procurado pela mulher. Então, de que vale correr ou ficar no passeio, se mesmo chegando a tempo à estação não existe comboio? Desliga o telefone. Atira violentamente o cigarro para o chão. Acende outro cigarro, novamemente. E lançando fumo, agora um pouco mais calma, recorda que tem de apanhar um comboio incerto, enquanto permanece muda, num passeio.
domingo
foder é perto de te amar, se eu não ficar perto
Já não consegues sentir.
Não vislumbras razões para
deixares as gotas
de água perfurarem
a tua pele.
A chuva continua a doer-se,
sem compreender
porque choras com ela.
Reencontras a ilusão de
falsos sentidos ausentes;
são fictícias inexistências
analgésicas da dor de seres só.
Escorrem desilusões pelo
teu rosto, enquanto o
afundas na tua nuvem favorita.
Solitárias, todas as
mudas palavras esculpidas
à imagem dele são quebradas.
O teu anjo morreu.
Lá fora permanece
a chuva que tanto amavas.
Um dia, voltarás a senti-la.
Já não perfura;
sinto, gotas leves,
sussurrando que te quero...
Não vislumbras razões para
deixares as gotas
de água perfurarem
a tua pele.
A chuva continua a doer-se,
sem compreender
porque choras com ela.
Reencontras a ilusão de
falsos sentidos ausentes;
são fictícias inexistências
analgésicas da dor de seres só.
Escorrem desilusões pelo
teu rosto, enquanto o
afundas na tua nuvem favorita.
Solitárias, todas as
mudas palavras esculpidas
à imagem dele são quebradas.
O teu anjo morreu.
Lá fora permanece
a chuva que tanto amavas.
Um dia, voltarás a senti-la.
Já não perfura;
sinto, gotas leves,
sussurrando que te quero...
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