quinta-feira

nos velhos tempos

Bandos de putos atravessam a estrada, chutando a bola que no final acaba no quintal do vizinho da caçadeira. Meninas de saias que cochicham umas com as outras e que fazem caras feias quando dizem "beijinhos". Escondem-se e contam até dez. Saem em busca uns dos outros, a procura dura anos. Os corajosos já não precisam que lhes empurrem o baloiço, e até tocam com os pés na árvore. Querem ser grandes e poderem arrancar folhas da tangerineira a partir do chão, esticando apenas os braços, para oferecerem às meninas que já dão as mãos. Há castigados inocentes e tabefes, escaramuças em que os mais fracos saem sempre a perder. Os irmãos obrigam a comer sopa, a mãe diz que a cenoura faz os olhos bonitos... mas não fazem os putos mais bonitos aos olhos das meninas, seja em que ano for. Os desenhos animados são mais importantes do que os putos pensam, os monstros não existem debaixo da cama. E quando um dia quiserem voltar a ser crianças, os putos deixam de ser putos e vão descobrir os monstros que são eles mesmos. E o jogo das escondidas, esse continuará sempre. Putos e meninas escondem-se desde a infância, permancendo à espera de alguém que os procure e em seguida corra até à parede para anunciar o escondido. Precisam de ser encontrados, mesmo não sabendo por quem, mas estão fatalmente condenados a sê-lo. Pelos velhos tempos, que poderão nunca ter sido.

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