quarta-feira
eternas rotinas (pós-helénicas)
Estremece a cadeira, e o homem nela pregado. O carrossel começa a girar, enquanto os braços da máquina ora se levantam, ora se baixam. O homem fixa-se inicialmente nesse metal amarelo, já gasto, com uma expressão de terror. Era esta a sua rotina ao domingo de manhã, semana sim, semana não. A expressão inicial de terror rapidamente se desvanece, e o homem fecha as pálpebras ao som dos braços giratórios. Sente o vento nas mãos e com elas sente o cinto que o prende à cadeira. Está a ser observado. Alguém o vê solitário e lê as emoções que transparece. O homem contempla agora tudo o que está à sua volta. Sente uma presença. Humana? Talvez tenha sido mera sensação, afinal ele escolhera aquele carrossel para cumprir o seu ritual precisamente porque aquele parque de diversões já não era divertido para ninguém. Desapertou o cinto. O braço mecânico estica-se uma última vez, e o homem é projectado no ar. Cai uns metros à frente. Fica apenas com umas nódoas negras. Alguém lê os seus pensamentos e consegue compreender exactamente o que ele vive no tempo em que se encontra no ar. A tensão do momento em que se apercebe que pode sentir dor dentro de instantes... Mas nunca se magoa, são sempre nódoas negras. Que o marcam e fazem recordar-se que tentou voar. Alguém observa (ou não) este estranho ritual. Vôo? Ou alcance de um qualquer extâse que resulta numa queda certa? Quem sabe? Quem pode saber?
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